Estou testando o novo brinquedo. Sempre tive medo de escrever, talvez as linhas abaixo confirmem a minha falta de coragem.

A Renatinha, a Pedrozo, pessoa (palavra) que faz lembrar Verissimo, me encorajou.

Hoje é um dia especial. Mentira, é um sábado de festas na capital pequena de Porto. Parada pela paisagem patética de uma paranóia paciente. E eu estou na paranóia delirante, obviamente.

Uma cidade deserta, porque todos se mandaram para o litoral - norte ou sul - pegar um bronze e beber uma caixa de cerveja. A minoria trabalha, fica fazendo plantão, ganha horas extras. A maioria, que está na praia, te convida pra sair.

Porto Alegre parece um sertão imenso de calmaria. Uma cidade que mais assemelhasse com o interior. Se você liga pra pedir comida, ninguém atende. Se você liga para os amigos, eles estão viajando.

Curtindo a monotonia da calmaria espelhada no asfalto vista da minha janela, resolvi descer os três andares do meu prédio. Escorreguei pelo corrimão das escadas, abri a porta e saí. Saí, sem nenhuma meta, mas saí. Você que pensa que saí sem lenço e sem documento está errado. Saí com a carteira, porque na cidade grande volta e meia os policiais te abordam. Abordam por abordar. Se não tiver documento, não tem problema, dá 50 reais e continue o passo. Mas com eu não tenho grana optei pelo RG e CPF. Bom, voltando ao assunto, olhei os dois lados da rua e resolvi me manter no mesmo lado.

Dei um "oi" pra vizinha não civilizada e continuei observando o movimento parado. Na esquina vi o sem vergonha do mendigo que mija na frente do meu prédio. Sim, ela mija. Nunca vi, mas só pode ser ele, porque é sempre este sem-teto que paira por aqui.

Na minha opção sem nenhuma escolha, resolvi ir conversar com este estranho, a quem tenho tanto ódio. (Vagabundo é vagabundo porque quer ser vagabundo. Claro que é esta minha conclusão.)

Me aproximei dele. Parei e antes de perguntar o motivo de sua urina no meu prédio tanto santo dia, ele interrompeu meu raciocínio enfurecido com um palavra.

- Ira!

Eu com as mãos nos bolsos, levantei a sobrancelha como se fosse um ponto de interrogação. Ele bebeu um gole da pinga calmamente e respondeu aos meus gomos da testa que ficaram surpresos com a sua "ira". 

- Moleque, eu sei que você tem raiva de mim. Mas eu não mijo no seu apartamento. Juro. E se mijasse, o que você ira fazer?

Momento angustiante. Subiu um vermelhão e me senti culpado, isso que eu não falei nada. Me passou um curta-metragem. Eu não sabia se voltava pra casa, se xingava o bendito homem ou se eu... Sei lá.

Como esta porcaria bêbada saberia a minha pergunta? Um bosta deitado tem tanta ousadia de me encarar? Durante o meu pensamento inviolável ele novamente se intromete.

- Você não me conhece. Por isso não tem direito de vir aqui me julgar.

Mas eu? Eu saí de casa por sair. Não queria encontrar esta pessoa.

Eu ainda não conseguia falar nada. Tremia, não sei se era de raiva, mas tremia. Ficava indignado com a situação. Como ele sabia que eu ia falar que ele mijava na frente do meu prédio? Trêmulo, respondi que não tinha ido até ele para julgá-lo. Apenas vim oferecer um prato de comida.

Ai foi a vez dele me olhar estranho. Eu me saí bem, ante o susto que levei.

- Não, obrigado.

Com a resposta daquele homem fedido, dei as costas e fui me embora. Dei graças por ter saído daquela angústia. Me viro e ele grita!

- Sou um pobre coitado, mas nem por isso não mereço respeito. Bebo, pra não ficar pensado o quanto sofri. Já fui que nem você, e ainda conto com o futuro. Por acaso você tem como arranjar um emprego pra mim?

Eu parei de olhar pra ele. Baixei a cabeça e num momento "porco" resolvi dar o primeiro passo pra casa. Nos 40 metros da minha porta esperava pela voz dele, mas o homem ficou quieto e a minha cabeça gritava.

Entrei em casa. Comi. Dormi.

Ele. Agonizou até a Samu pegá-lo.

Eu. Durmo toda noite com remorso.

Parece, mas não é lição de moral.

Fato do egoísmo

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